O velho e o mar, de Ernest Hemingway
“Tudo o que nele existia era velho, com exceção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis.”
Esta foi uma releitura. Li este livro pela primeira vez há muito tempo, para ser mais específica, quando Stranger Things estava apenas na primeira temporada. No entanto, parto do pressuposto que algumas narrativas nos convidam para uma segunda leitura, pois a história é tão repleta de significados e entrelinhas que, inevitavelmente, passam despercebidas. Este foi o caso de O velho e o mar, que apesar de ser uma narrativa bastante curta, é complexa e traz muitos temas a serem compreendidos - ou não. Assim, dividirei em duas partes, uma que foca apenas na relação entre Manolim e Santiago e, em seguida, sobre o peixe e sua simbologia.
Manolin e Santiago: amizade, tempo e velhice
Santiago é o personagem que ninguém quer ser, mas todos fomos, somos ou seremos um dia. Por muito tempo, não tem sucesso em suas pescas, fator do qual faz os pais de seu fiel amigo, Manolin, pedirem para que ele se afaste do velho para um barco vizinho e melhor, ordem da qual não o impede de visitar o velho durante à noite.
São nessas visitas que o narrador traz informações sobre essa rotina noturna, ele gosta de beisebol, lê notícias antigas e conta ao seu amigo seu desejo de um dia pescar um grande peixe até dormir.
No entanto, o ponto mais forte neste primeiro momento foi o trecho “Em tempos, houvera na parede uma fotografia da esposa, mas ele a tinha tirado porque se sentia muito só ao olhá-la todos os dias; agora estava escondida numa prateleira, debaixo de sua camisa lavada.” Pode ser, que ao ler esta parte, muitos pensem sobre indícios de uma certa insensibilidade, mas quando perdemos alguém - seja pela morte,pelo tempo ou por outras razões - , sabe a dor e sentimento de solidão ao olhar aquele rosto congelado pelo tempo. Algo naquela simples fotografia traz à tona a passagem do tempo, a lembrança infeliz de uma felicidade verdadeira, de você mesmo, indiretamente, naquele período que não existe mais. Alguém pode pensar: “ah, mas pelo menos aquele momento existiu”, no entanto, esse é o ponto: a foto, a pessoa e tudo contido ali naquela imagem, ao passar do tempo traz mais dúvidas do que certezas, em determinados momentos pensa-se se você não esteve apenas delirando porque as pessoas que vão embora não ficam mais conhecidas, elas se tornam tão estranhas que parecem alucinações.
Logo, entra Manolin. Ele é a única realidade e contato que Santiago tem com o externo, para conversar e distrair-se. Isso me faz pensar… quem será meu Manolin quando todos que conhecemos não existirem mais? Com quem conversaremos sobre as notícias antigas? Com quem poderemos falar repetidas vezes sobre o mesmo assunto quando todas as fotografias estiverem “escondidas numa prateleira, debaixo de uma camisa lavada”?
O espadarte: natureza, força e temperança
A narrativa entre natureza e Homem faz parte da literatura há muito tempo, um exemplo é a grandiosa Moby Dick e seu perseguidor estranho e doentio, Ahab.
No entanto, peixe não é apenas um peixe quando se trata de literatura, mas sim de um símbolo sobre algo maior, no caso de ambas as narrativas, a baleia e o espadarte representam a natureza em geral, enquanto os humanos retratados mostram a nossa insignificância diante desses animais.
Além disso, a figura desses animais podem ser interpretadas como uma representação de objetivos que temos durante a vida, lutamos por eles e, por vezes, os alcançamos, mas… e depois? Aliás, quando estamos sonhando sobre esses desejos não incluímos as problemáticas e consequências para com isso. Ahab e Santiago, ao conseguirem os seus objetivos - os peixes-, assistem o seu mundo após essa conquista - que não é agradável.
Por fim, tem-se dois homens e duas representações e personalidades diferentes diante da natureza. Por um lado, Ahab, que trata a baleia como uma inimiga, pois ele projeta no animal o seu fracasso e perda de sua perna e a culpa; por outro lado, Santiago apresenta um imenso respeito pelo peixe que ele mata, mas não apenas por ele, mas pela natureza inteira ao seu redor.
Duas narrativas diferentes, mas semelhantes em razão da luta da natureza e o espelhamento de si mesmo para com determinado objeto - o animal. Pode parecer algo distante, contudo também vivemos do espalhamento a todo momento, as nossas baleias e espadartes são, muitas vezes, outros elementos, mas estão ali. Todavia, cabe a nós qual comportamento iremos seguir: o de Ahab ou de Santiago.


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