Diário de um homem supérfluo, de Ivan Turguêniev
“Enquanto vive, o homem não sente a própria vida; depois de algum tempo, como um som, ela se torna audível para ele.”
“Em-me um acúmulo de recordações e sentimentos desnecessários. Isso não mais se repetirá. Desabafos sentimentais são como alcaçuz: no início, você mastiga e não parece ruim, mas depois fica um gosto horrível na boca.”
“Pelo visto, a natureza não contava com meu aparecimento e, em consequência disso, tratou-me como uma visita inesperada e inconveniente.”
“Reli o que escrevi ontem e por pouco não rasguei o caderno inteiro.”
“A infelicidade dos solitários e tímidos.”
“Seria o amor um sentimento natural? Seria amar algo inerente ao homem? O amor é uma doença e não há remédio que a cure.”
“É difícil para um ser vivo despedir-se da vida. Por que me faz carinho, meu pobre cão? Por que deita o peito na cama, metendo agitado o rabo entre as patas sem tirar de mim seus olhos bondosos e tristes? Está com pena de mim? Ou já sente que seu dono logo faltará?”
Esse compilado de frases são algumas das diversas que tornam esse esse enredo uma das histórias mais tristes já lidas por mim, desde A morte de Ivan Ilitch.
A narrativa tem formato epistolar, por meio do diário de Tchulkatúrin, do qual acaba de receber a notícia que irá morrer e não há muito tempo. Dessa maneira, ele passa a escrever sobre sua vida e, de certa forma, também a respeito de seu processo de desprendimento a sua vida e ao mundo. As reflexões são diversas, mas as que recebem destaque são sobre o amor - que o autor não vê com bons olhos, mas sim como uma doença, pensamento o qual contradiz o senso comum de este ser um sentimento universalmente considerado como “bom”-, a dificuldade de desprender-se da vida e das recordações, confirmando que, em leito de morte todos estaremos, inevitavelmente, sozinhos com nossa própria mente, recordando suas pessoas, suas paixões e uma esperança de, talvez, encontrá-las mais uma vez, mesmo após a morte.
Apesar de parecer, a princípio, um livro triste e pessimista, ao finalizar esta leitura percebe-se que não, na realidade, esta é uma narrativa muito otimista, pois em diversos momentos o personagem diz que o maior erro de sua vida foi não ter aproveitado todos aqueles instantes com mais intensidade. Quando foi rejeitado por Liza, ele percebeu que chorou pouco, que deveria ter chorado mais, sentido ao máximo toda aquela dor, pois, só assim, a teria superado de fato. Mas ao invés disso, ele fez o que muitos de nós fazemos: segurou seu choro, afogou-se em trabalho, distrações, até mesmo a procurando em outras pessoas para não pensar nela, mas… ao fim da noite, ela estava lá, não tinha ido embora e isso é uma sentença de morte e repreensão. Ora… mas o importante é não parecer fraco, não é mesmo? O importante é engolir as lágrimas, elas o farão mais fraco, certo?
Não, não… para o nosso herói.
Segundo ele é necessário sentir e chorar ao máximo as partidas, adoecer, “ficar de cama”, pensar na pessoa por dias, permitir-se sonhar com ela, mergulhar em mais profunda anestesia pelos primeiros dias, pois só assim o sentimento realmente será enterrado completamente, apenas dessa maneira essa pessoa irá embora de você para sempre… sentindo ao máximo a sua partida e ausência. Só assim para você abrir os olhos e enxergar as outras pessoas ao seu redor, seus outros amores de forma inteira e não procurando desesperadamente uma única pessoa em outros.
“Estou morrendo… Vivam, vivos!”
Até a próxima resenha.


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