Memórias do subsolo, de Fiódor Dostoiévski




“Mesmo assim, eu já trazia na alma o subsolo. Tinha um medo terrível de ser visto, encontrado e reconhecido.”

 

“E, onde não existe amor, também não há razão.”

 

Este, um dos livros mais importantes e pessimistas de Dostoiévski, do qual é dividido em duas partes. A primeira, temos um amontoado de filosofias e a segunda o enredo por si só. Vamos discutir com mais cuidado cada um deles, sempre lembrando que as ideias retratadas ao longo do livro foram inspirações para Freud e Nietzsche em suas obras, por isso, para conhecedores das obras de tais autores, podem encontrar semelhanças. 

 

A primeira parte: O subsolo

 

Aqui nós temos o Homem do Subsolo em seus quarenta anos, ele reflete sua vida a partir de um imenso monólogo. Os assuntos variam entre vingança (ressentimento sobre si e os outros), o homem pensante e de ação, no qual chega a conclusão de que aqueles que têm uma personalidade de ação são “estúpidos” e com “consciência hipertrofiada”, porém apresentam um avanço; em contrapartida, segundo o nosso herói do subsolo, o homem pensante apresenta maior discernimento, cautela e, por consequência, mais inteligência, contudo, não é uma pessoa com muitos movimentos, fadado a ser escravo de sua própria mente e nunca ter avanços significativos. 

 

Além disso, tem-se a reflexão sobre a paixão do ser humano pelo sofrimento. Para ele, o homem ama o sofrimento e por isso sempre busca por isso, mesmo que de maneira inconsciente, por exemplo, mesmo após tantas decepções amorosas e dores sofridos por términos e mais términos de um relacionamento, o Tinder nunca está vazio, pelo contrário, sempre sempre está cheio. Ora! Se está tão magoado e quebrado pelos antigos amores, por que ainda procura algo? mesmo sabendo que, em grande parte, terão o mesmo fim? Ao analisar a teoria do sofrimento, descrito pelo Senhor Subsolo, tudo se resume à atração pelo sofrimento. O ser humano gosta de sofrer e quanto mais o nega, mais afirma que sim, é um enorme entusiasta pela rejeição e dor.

 

Seríamos então, no fundo, todos masoquistas? não, jamais! A questão é que a dor nos torna vivos, em algum momento da vida precisamos nos render à dor emocional, porque assim estaremos vivendo e sentindo a vida. Fora isso, cairemos em um tédio insuportável, uma amostra grátis da morte. Por isso continuamos a procurar, porque não queremos estar mortos, queremos sentir e viver intensamente, até mesmo os “Homens Pensantes”.

 

Por fim, nesta primeira parte o leitor acompanha um discurso repleto de muitas contradições, ora ele mostra-se totalmente arrogante, alegando sentir-se melhor do que todos; ora traz uma baixa-auto estima de dar pena. Afinal, quem é ele? os dois. O ser humano sempre são os dois, aliás a arrogância nada mais é do que um medo disfarçado de superioridade, um mecanismo de defesa, apenas. 

 

A segunda parte: A propósito da neve molhada

 

Nesta parte, a narração volta ao passado quando o Senhor Subsolo ainda desfruta de seus vinte anos. Ele relembra seus desafios, principalmente na escola, em que era excluído por seus colegas, embora tivesse boas notas e fosse benquisto pelos professores. A partir dessas descrições, percebe-se quando surgiu a sua insatisfação consigo mesmo, paralelamente a um sentimento de grandiosidade frente a seus companheiros de sala. 

 

Entretanto, mesmo com tantos obstáculos, agora adulto tenta uma aproximação com essas mesmas pessoas, ao frequentar suas casas, mesmo visivelmente não sendo bem recepcionado. Porém, a partir de uma desses eventos de tentativa à reconciliação e aceitação daqueles colegas, ele conhece Liza, uma prostituta da qual ele se apaixona perdidamente. 

 

Dessa maneira, o enredo passa a trazer revelações de cunho psicológico sobre o amor e os conflitos que são acompanhados com esse sentimento que ora nos leva ao paraíso ora para o inferno. O Senhor Subsolo, que até então não havia experienciado a vulnerabilidade frente a outra pessoa, entra em desespero. 

 

Por fim, é um livro fenomenal! Saímos outra pessoa dessa história, pois é uma narrativa muito humana e tudo que envolve as sombras humanas torna-se um espelho conturbado ao leitor, que, sem querer, identifica-se com tais sensações, aliás, não somos apenas formados por ossos, órgãos e matérias químicas, também há algo transcendental, a alma, os sentimentos, a mente, o subjetivo, a dor, desespero, amor e a vontade de ser visto e amado. Ao não alcançarmos tais objetos de maneira adequada, ao esperarmos sentados pela aprovação do ser amado, podemos cair na mais completa injúria e esquinas assombrosas de nós mesmos. 

 

Essa é a beleza de se ler Dostoiévski, pois diante de suas obras é inevitável a vulnerabilidade passar despercebida. 

 

Excelente livro! Excelente autor! Obrigada Dostoiévski por ter existido, pois você salva minha vida a cada leitura. 

 

Até a próxima  resenha.

 


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